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Mayumi Sato

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Seu rosto no pornô: como a tecnologia pode acabar com o consentimento

Universa

29/01/2019 05h00

Crédito: iStock

Que tal escolher o rosto que vai aparecer no próximo pornô que você vai assistir? Pode parecer interessante! Mas, e se o rosto for o seu? E se alguém estiver assistindo pornografia com o seu rosto ou de alguém da sua família sem consentimento?

Um usuário da rede social Reddit criou uma ferramenta de machine learning, ou inteligência artificial, capaz de fazer o reconhecimento facial de milhares de imagens de redes sociais e páginas na internet, e assim colocar o rosto de pessoas famosas ou comuns no lugar de rostos de atores e atrizes pornô em filmes.

No experimento, ele fez com que Gal Gadot (Mulher Maravilha), Scarlett Johansson e Taylor Swift substituissem as faces de atrizes em filmes pornográficos. A tecnologia por trás disso é chamada "deepfake", e tem a ver com a criação de imagens e vídeos que nunca foram filmados ou fotografados na vida real, por meio de softwares.

E o que isso tem a ver com sexo?

Com tantos testes e pesquisas que combinam tecnologia avançada e sexualidade, em breve teremos muitas opções para personalizar nossa experiência com o sexo e a pornografia. Criar um filme erótico exclusivo para você com o rosto e voz daquela atriz ou ator que você adora, ou até de um possível crush, será muito simples.

O que pode ser perigoso e assustador. Este tipo de criação manipulada abre um mundo de possibilidades para a indústria pornográfica, mas também traz muitos riscos, já que os vídeos falsos podem prejudicar a vida das pessoas.

Como vamos lidar com o consentimento e a exposição indesejada nestes casos? E se os vídeos forem percebidos como reais?

Hoje já são feitas cerca de 300 denúncias sobre exposição íntima por ano, de acordo com a ONG Safernet, onde a maior parte das vítimas são mulheres que tiveram imagens íntimas vazadas por namorados ou conhecidos. Com o avanço das deepfakes, será que não corremos o risco de cair numa lógica de culpabilização da vítima, como acontece em casos de pornografia de vingança e estupro? "Se tinha fotos disponíveis na internet, estava pedindo", pode se tornar uma desculpa comum para este tipo de caso. Como vamos responsabilizar pessoas mal intencionadas?

Com ou sem inteligência artificial, o consentimento sobre as imagens deveria ser obrigatório na hora de compartilhar nudes ou qualquer outro tipo de imagem de outra pessoa na internet.

E enquanto discutimos tudo isso, uma regra continua clara: não compartilhe fotos e vídeos íntimos que não sejam seus com terceiros. Não importa quem te mandou ou se a sua intenção é boa (como alertar terceiros pelo grupo de whatsapp). É preciso que cada um se responsabilize pela divulgação de conteúdo que, provavelmente, está sendo usado para humilhação, vingança ou chantagear alguém. E isso é crime.

Em tempos de deepfake, esse é o único jeito de reduzirmos danos e protegermos uns aos outros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Mayumi Sato é meio de exatas, meio de humanas. Pesquisadora e diretora de marketing do Sexlog quer ressignificar a relação das pessoas com o sexo e, para isso, acredita que é preciso colocar a mão na massa, o que inclui decodificar o comportamento humano. Ao longo dos anos, estudando e trabalhando com o mercado adulto, passou a fazer parte de uma rede de mulheres interessadas e ativistas no assunto, por isso sabe que não está – não estamos – só. Idealizadora do cínicas (www.cinicas.com.br) e feminista sex-positive.

Sobre o blog

Dados e pesquisas sobre sexo e o comportamento dos brasileiros entre quatro paredes. Muita informação, tendências, dados – e experiências próprias! - sobre o assunto. Um espaço para desafiar tabus e moralismos em torno do sexo.

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