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Mayumi Sato

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É Carnaval! Vamos falar sobre o fetiche de Inversão?

Mayumi Sato

27/01/2018 05h00

E cá estamos no Carnaval, essa linda época do ano onde tudo é permitido! A nudez não só deixa de ser condenada, como é transmitida pela TV aberta em horários não tão nobres, homens héteros se transvestem para curtir o carnaval de rua, se enchem de maquiagem, glitter e purpurina e dão vazão a muitos dos seus desejos reprimidos ♥

Peraí, desejos reprimidos?

Ainda não consegui entender racionalmente, e nem encontrei explicação científica, para essa tradição que define algo como socialmente aceito em apenas uma época do ano. Digo isso porque, à parte das fantasias de carnaval e das maquiagens, a noção heteronormativa se mostra bastante frágil e restrita em todos os outros momentos da vida: a lista do que pode ou não pode fazer é repetida exaustivamente em forma de orientação, piadas e indiretas, mas durante o carnaval – curiosamente – ela se torna repentinamente elástica.

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Elasticidade essa que eu, pessoalmente, considero absolutamente saudável, uma vez que estamos em pleno 2018, revisitando conceitos do que são brinquedos de meninas ou meninos, cores de enxovais de recém nascidos e a possibilidade de fluidez de gênero e orientação sexual.

Nada mais natural que, no meio de todos esses questionamentos e mudanças, certos comportamentos esperados do homem adulto hétero e padrão, também entrassem na dança.

Mas você está preparado para receber a notícia de que aquele seu tio, de repente, sentiu vontade de se vestir com roupas ditas femininas no dia a dia? Se não está, o que conforta é que o problema está em você e não nele.

Voltando às práticas que fogem da heteronormatividade esperada, saiba que existe um fetiche – mais comum do que se imagina – que diz respeito principalmente a homens héteros, chamado de inversão. Nesse fetiche, o casal hétero desafia a atuação esperada de cada parceiro e a mulher penetra o homem usando um dildo.

Variações são possíveis e igualmente bem vindas. A introdução de mais um elemento na relação por exemplo, que pode ser um homem, uma mulher trans, casais ou o que a imaginação mandar.

Há algum tempo procurei alguns casais do Sexlog, rede de sexo e swing, para entender a relação deles com esse tipo de atividade. Da pesquisa feita com 4.500 casais, 54% deles responderam que ainda não praticaram o fetiche, mas têm vontade. 43% já praticaram inversão e apenas 3% disseram não ter vontade.

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Aproveitei para pedir alguns depoimentos que podem nos ajudar a entender se isso, de alguma forma, afetaria sua orientação sexual (já que, nessa ocasião, eu consultei apenas casais héteros):

@insaciavel_48: "Me classifico como hétero, mas em alguns casos a prática do fetiche pode influenciar (na percepção da pessoa sobre a sua orientação sexual). Acho que não é preciso ter preconceito, basta se conhecer internamente para se aceitar. Minha esposa é cúmplice desse fetiche e aproveitamos de todas as formas com prazer total"

@hmbiquerativo: "Sou casado e me considero pansexual! Minha preferência é ser passivo para homens! Minha esposa que me apresentou ao fetiche e ela adora e participa comigo."

@renatobissex: "Sim, me considero hétero e não influencia a forma como me identifico, mas existe um preconceito cultural. Minha parceira não gosta, por isso procuro realiza-lo com outras pessoas. Não sinto atração por homens, mas me excito ao ver minha esposa tendo relações com outros. Já tive experiências com casais onde o homem era bi."

@coroacabofrioquer: "Eu sou hétero, mas gosto de inversão. Tenho tesão por trans mas homens não me atraem. O preconceito existe, mas apenas daqueles que nunca fizeram."

@topandra: "Me considero hétero e isso não influencia como eu me classifico, já que só pratico com mulheres. Existe um preconceito que acaba relacionando a prática com homossexualidade e isso faz até com que as mulheres tenham medo de tocar aquela região do corpo do homem."

@brenda_rosana: "Eu sou completamente mulher e totalmente heterossexual, não sinto atração por mulher de jeito nenhum. Pratico inversão com o meu parceiro e isso não influencia em nada na forma em que o enxergo. Ainda hoje existe muita hipocrisia, as pessoas vêem o homem como o macho, provedor e por aí vai, mas acho que devagar, muito devagar mesmo, as coisas têm mudado. Hoje o homem, ainda que no sigilo, tem se dado mais prazer, quando procuram sexo anal, seja com homens, seja com mulheres que, como eu, gostam muito de inversão. E para eles, por causa da próstata, é um prazer indescritível, eles estão se permitindo mais."

Muito legal né? Fico feliz em perceber que, pelo menos nessa comunidade que já se interessa por novas práticas sexuais, a noção de que prazer anal não tem nada a ver com orientação sexual tem ficado cada vez mais clara. E mais pessoas têm aceitado o que lhes dá prazer. E que venham novas mudanças positivas por aí!

 

Sobre a autora

Mayumi Sato é meio de exatas, meio de humanas. Pesquisadora e diretora de marketing do Sexlog quer ressignificar a relação das pessoas com o sexo e, para isso, acredita que é preciso colocar a mão na massa, o que inclui decodificar o comportamento humano. Ao longo dos anos, estudando e trabalhando com o mercado adulto, passou a fazer parte de uma rede de mulheres interessadas e ativistas no assunto, por isso sabe que não está – não estamos – só. Idealizadora do cínicas (www.cinicas.com.br) e feminista sex-positive.

Sobre o blog

Dados e pesquisas sobre sexo e o comportamento dos brasileiros entre quatro paredes. Muita informação, tendências, dados – e experiências próprias! - sobre o assunto. Um espaço para desafiar tabus e moralismos em torno do sexo.